Combater a pobreza vai além do crescimento econômico e exige políticas públicas conectadas, atuação conjunta e compromisso real com a transformação social.
Vera Cordeiro
Médica, fundadora e presidente do conselho de administração do Instituto Dara
Sabrina Porcher
Diretora executiva do Instituto Dara
Justiça social não é uma ideia abstrata. Ela se traduz em condições concretas de vida, como acesso à saúde, à educação, à renda, à moradia digna e à cidadania. Quando esses direitos são negados a parcelas significativas da população, o resultado não é apenas desigualdade, mas exclusão estrutural.
O Brasil vive uma contradição evidente. Apesar de figurar entre as maiores economias do mundo, segue entre os países mais desiguais na distribuição de renda. Milhões de pessoas continuam em situação de pobreza ou vulnerabilidade, sobretudo mulheres negras, mães solo e populações periféricas. Crescimento econômico, isoladamente, não garante desenvolvimento humano nem justiça social.
Enfrentar a pobreza exige ir além de respostas emergenciais. Exige reconhecer que a exclusão é fruto de escolhas estruturais e que pode ser transformada por outras escolhas. Políticas fragmentadas, que tratam saúde, educação, renda e moradia separadamente, tendem a oferecer soluções parciais para problemas que são interligados.
A pobreza não se resume à falta de renda. Ela se manifesta também na insegurança alimentar, no adoecimento recorrente, na evasão escolar, na precariedade habitacional e na negação cotidiana de direitos. Superá-la requer ações integradas e baseadas em evidências.
Experiências brasileiras mostram que abordagens intersetoriais geram resultados duradouros. Uma iniciativa criada há mais de três décadas e aplicada a mais de 100 mil pessoas, com impactos indiretos que alcançam centenas de milhares no Brasil e em outros continentes, atua de forma integrada em saúde, educação, moradia, geração de renda e cidadania, com foco em famílias chefiadas por mulheres negras e mães solo.
Avaliação independente da Universidade de Georgetown indica que, entre três e cinco anos após o acompanhamento, houve redução de 86% nas reinternações hospitalares de crianças atendidas. No mesmo período, a renda familiar praticamente dobrou, e o percentual de famílias com casa própria subiu de 26% para cerca de 50%. O estudo também aponta aumento de 433% na percepção de bem-estar e melhora de 72% na saúde física e emocional das famílias, evidenciando transformação estrutural, e não apenas alívio momentâneo.
Esses resultados reforçam uma constatação importante: quando políticas e ações sociais são integradas e sustentadas por dados, é possível romper ciclos intergeracionais de pobreza. Justiça social deixa de ser apenas um valor moral e passa a ser também uma estratégia de desenvolvimento e estabilidade.
O reconhecimento internacional dessa experiência reforça que soluções estruturadas são possíveis. Avançar nessa agenda exige corresponsabilidade. Governos devem formular políticas integradas, a sociedade civil contribui com inovação, e o setor privado precisa compreender que investir em justiça social não é assistencialismo, mas compromisso com o futuro do país.
A desigualdade não é natural. Ela é resultado de decisões históricas e pode ser transformada. Justiça social é escolha coletiva. Quando direitos se encontram e políticas se integram, a pobreza deixa de ser destino.